domingo, 24 de abril de 2011

SERENATA (Canção Açoriana)




SERENATASubtítulo: CANÇÃO AÇORIANA
Título vulgarizado: SERENATA AÇORIANA
Música: João Maria Sequeira; João Bernardo Rodrigues (colaborador)
Letra: Antero Tarquínio do Quental (1842-1891), dedicada a "D. Margarida de Vasconcelos"
Incipit: Caíu do céu uma estrela
Origem: Ponta Delgada
Data: 1887

Caiu do céu uma estrela,
Ai que eu bem a vi tombar!
Era a noite pura e bela,
Murmurava ao longe o mar.

Era tudo extase e calma,
Perfume, encanto, fulgor...
Só no fundo da minha alma,
Que desconforto e que dor! (Ah!)

Dorme e sonha, minha bela,
Embalada ao som do mar...
Caíu do céu uma estrela.
Triste do que a viu tombar!

Era uma estrela caída,
Uma entre tantas, não mais!
Era uma ilusão perdida,
Um só ai entre mil ais!

E hás-de viver torturado,
Louco, incerto coração.
Só por um astro apagado,
Por uma morta ilusão? (Ah!)

Dorme e sonha minha bela.
Como chora ao longe o mar!
Caíu do céu uma estrela.
Ai de mim que a vi tombar!


Canta-se a solo a 1.ª quadra e repete-se no 4.º verso três vezes a expressão "ao longe o mar". Canta-se a 2.ª quadra e bisa-se o 2.º dístico. No final, imediatamente a seguir a "dor" insere-se um sentimental e dramático Ah. A 3.ª quadra, que funciona como um refrão, canta-se seguida, repetindo-se o 2.º dístico.

Informação complementar:
Serenata em compasso ¾ e tom de Fá Menor, composta na Primavera de 1887 na cidade de Ponta Delgada por João Maria Sequeira. Composição com três partes musicais, em crescendo. Com trechos especificamente escritos para duas vozes masculinas, a Serenata testemunha a ilustração musical do autor. Inscreve-se numa época de intensa produção serenateira em países como Portugal e o Brasil, exercício também secundado pelos compositores eruditos. Mantendo uma tradição festiva herdada do Barroco, a serenata é apropriada pela sociedade burguesa e mantém-se ao longo da Belle Époque como importante acontecimento social associado aos ritos de cortejamento e às grandes festividades públicas. Os testemunhos de época deixaram notícia de serenatas em brochuras de música impressa, telas a óleo (serenata, serenade, nocturnal serenade, staendchen). Os jornais de Coimbra noticiavam com pormenor e colorido as irresistíveis serentatas estudantinas ou bandolinatas com que os académicos percorriam vagarosamente as ruas da Alta histórica nos meses de Pimavera-Outono.

A cor local deste tipo de composições era dada pela pronúncia, pela ambiência sonoro-cultural e por algumas técnicas enraizadas de execução de instrumentos solísticos como as violas de arame que se tinham vindo a territorializar. Um bom exemplo do que explanamos é configurado pelo extenso reportório literário-musical do brasileiro Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), à base de modinhas popularizadas, serenatas e barcarolas.
Algumas das canções cantadas e gravadas por Catulo tornaram-se conhecidas nos Açores, como MAURA, e muitas deles poderiam passar facilmente por
serenatas dos estudantes de Coimbra [CEARENSE, Catulo da Paixão - Cancioneiro Popular de Modinhas. 25.ª erdição. Rio de Janeiro, Livraria do Povo, 1908, disponível em WWW: <URL: http://www.archive.org/details/3318765;
Meu Sertão. Catulo da Paixão Cearense, 2002, disponível em WWW: <URL:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/catulo3.pdf>].

João Maria Sequeira era tocador de violão francês e professor de ginástica no Liceu de Ponta Delgada, estando casado com D. Margarida de Vasconcelos, uma amiga de infância de Antero. O registo biográfico do autor existirá possivelmente no arquivo do Liceu de Ponta Delgada. João Bernardo Rodrigues aparece referenciado na solfa recolhida por César das Neves mas não na rememoração de Antero de Quental sobre a origem desta composição. Presume-se que tenha sido colaborador, numa fase mais adiantada de elaboração da obra.

Durante uma estadia na Ilha de São Miguel, na Primavera de 1887, Antero de Quental escreveu o seu derradeiro texto poético. Serenata é um conjunto de seis quadras destinadas ao canto, com rima cruzada de sete sílabas. Nelas, Antero intui premonitoriamente o fim, partindo do trajecto de uma estrela cadente. O poema nasceu da revisitação de Antero a uma velha amiga de infância, D. Margarida de Vasconcelos, então consorciada com o professor de ginástica e compositor João Maria Sequeira. No fim do encontro, Antero prometeu ao esposo de D. Margarida "uns versinhos para o meu amigo por em música".

Poucos dias volvidos, Antero fez chegar às mãos de João Maria Sequeira o poema, cujo conteúdo provocou no compositor a mais viva angústia, pois este julgava não estar à altura do vate. Após vários dias agarrado ao violão francês de seis cordas, Sequeira começou a sentir o fluir inspirado da melodia. Julgando a melodia satisfatória, Sequeira convidou Antero a assistir pessoalmente à primeira audição da Serenata. O poeta manteve-se sentado numa cadeirinha baixa, com o queixo quase colado aos joelhos. O seu rosto transfigurou-se à medida que Sequeira cantava e dedilhava o violão, e quando o compositor terminou com "Ai de mim que a vi tombar", duas lágrimas de profunda emoção rolaram pelo rosto de Antero de Quental.

Qual o papel de João Rodrigues da feitura da Serenata? Julgamos que a carta escrita por Antero a Wilhelm Storck em 29 de Março de 1891 ajuda a perceber a colaboração: "Tendo sido composta há quatro anos, na Ilha de São Miguel, a pedido de um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá muito conhecida e cantada por esses e por outros nos seus passeios musicais, em belas noites de verão". João Rodrigues seria membro da "sociedade cantante", quer dizer, do grupo de serenateiros insulares, a que pertencia Sequeira.

Serenata foi recolhida em Ponta Delgada e editada por NEVES, César - Cancioneiro de Muzicas Populares. Tomo I. Porto: Typographia Occidental, 1893, disponível em WWW: <URL:
http://purl.pt/742/1/mpp-21-a_1/mpp-21-a_1item1/P222.html>. Na recolha orientada por César das Neves, a letra vem disposta não em seis quadras mas em duas estrofes de doze versos cada. A pontuação dada pelo colaborador de César das Neves, Gualdino de Campos, não coincide com a que consta do manuscrito autógrafo. A nossa transcrição adopta a disposição da letra em quadras, copiando-as directamente do manuscrito autógrafo de Antero, pontuação incluída, que vem reproduzido por MARTINS, Ana Maria Almeida - Antero de Quental. Fotobiografia. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1985, p. 295.

A Serenata tornou-se muito popular no meio estudantil de Coimbra no decurso da década de 1890, seja trazida por estudantes oriundos da Ilha de São Miguel, seja apropriada através dos fascículos vendidos quinzenalmente pela empresa portuense de César das Neves (1841-1920) e Gualdino de Campos (1847-1919). Manassés de Lacerda conhecia esta composição e nos inícios do século XX integrou as quadras "Caiu do céu uma estrela" e "Dorme e sonha minha bela" no FADO PRIMAVERA (Cantarei na despedida), composição editada na série Fados e Canções Portuguezas cantadas por Manassés de Lacerda para cylindros e machinas fallantes, Porto, Casa Arthur Barbedo, s/d (1907). Contudo, a apropriação protagonizada por Manassés de Lacerda revela
estropiamentos na letra original, nomedamente no verso "Ai que eu bem na vi tombar".

Em Coimbra tem-se considerado o professor de música e regente do Orfeon Académico e da Tuna Académica (TAUC), natural da Ilha de São Miguel, Açores, Manuel Raposo Marques (8.11.1902; 5.9.1966) como autor da Serenata [Açoriana], atribuição incorrecta.

Quando Raposo Marques nasceu, na então Vila da Ribeira Grande, a Serenata [Açoriana] tinha sido composta havia 15 anos e era popularíssima na Ilha de São Miguel, nos teatros, nos salões e nos convívios de Verão no paradisíaco Vale das Furnas. No seu ecossistema natural era acompanhada por viola da terra, violão de cordas de aço e rabeca, sendo o ponteio da viola da terra mais rico e tecnicamente mais elaborado do que o mero toque por acordes que os guitarristas activos em Coimbra sabiam fazer.

Manuel Raposo Marques harmonizou esta peça para 1.º e 2.º tenores, barítono e baixo em 1948, ano em que foi estreada em público pelo Orfeon Académico de Coimbra (cf. SOARES, António José - Saudades de Coimbra. 1934-1949. Coimbra: Almedina, 1985, p. 327). A referida harmonização consta em MARQUES, Manuel Raposo - Canções Orfeónicas. Braga: Edição do Autor, 1952, págs. 11-14. Dos dados recolhidos conclui-se que quem modificou o título original Serenata para Serenata Açoriana foi Manuel Raposo Marques e que a formação musical que mais directamente contribuiu para a popularização desta alteração foi o Orfeon Académico de Coimbra. Raposo Marques, que acedeu à Serenata por via do Cancioneiro de Muzicas Populares que se guardava na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, foi escrupuloso no respeito pela autoria da obra, tendo anotado na solfa publicada em 1952: "A melodia desta «Serenata» foi composta em 1887, sobre a última poesia de Antero, na Ilha de São Miguel (Açores) por João Maria Sequeira, ao tempo professor de ginástica no Liceu de Ponta Delgada".

A primeira gravação orfeónica conhecida em Coimbra teve lugar em 1961, com comercialização em 1962 nos EUA (LP Coimbra Orfeon of Portugal, MONITOR), tendo feito os solos o tenor Berquo de Aguiar (cf. cassete Orfeão Académico de Coimbra, Ovação, OV-K77046, 1987, Lado A, faixa n.º 1, atribuíndo erradamente a letra a Sequeira). Ainda com harmonização de Manuel Raposo Marques, figura no LP Antigos Orfeonistas do Orfeon Académico de Coimbra, Philips 826622-1, ano de 1985, Lado 1, faixa n.º 6, com solos de Raul Moreira Dinis e Victor Nunes. Neste caso, atribuem-se música e letra a "José Domingues Sequeira", que não existe.

Variante gravada a solo por José Mesquita na antologia Coimbra dos Poetas, Coimbra, 2000, faixa n.º 5, acompanhado por Carlos Jesus (g), Luís Filipe e Humberto Matias (vv). No livreto do Cd mencionado, José Mesquita identifica correctamente a autoria da letra, mas quanto à música, limita-se a mencionar "arranjo de Raposo Marques".

José Mesquita não canta exactamente a melodia original de Serenata, mas sim uma adaptação do próprio cantor sobre o arranjo de Raposo Marques. Com atribuição incorrecta a Raposo Marques e acompanhamento de Octávio Sérgio (g) e Mário José de Castro (v) ouça-se José Mesquita em WWW: <URL:
http://www.youtube.com/watch?v=olk0o-30fo>.

Num trabalho de reconstituição do original que pretenda tirar partido de alguma cor de época, são de considerar a pluralidade de prestações vocais e o potencial da associação guitarra/violão/violino.

Transcrição: Octávio Sérgio (2011)   
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes 

 Leitura da Pauta em MIDI
(Link)
Orfeon Académico em 1962
(Link)

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