segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O meu professor de História – José Afonso


Era o terceiro dia de aulas do 2º R do Ciclo Preparatório em Outubro de 1969, na Escola das Areias em Setúbal e só nos faltava conhecer os professores de Religião-Moral e História.
O meu pai dizia-me que as Disciplinas de Português, História e Religião-Moral eram as traves mestras do ensino. Assim aguardava com expectativa as aulas da tarde, que começavam com Religião-Moral. O professor um padre recentemente chegado a Setúbal, não me tinha agradado. Não gostei do seu palavreado e tratou-nos como um bando de malfeitores e depravados. E a expectativa de Religião-Moral desvaneceu-se. Por vezes interrogava-me, porque raios escolheram este padre!? Admirava tantos padres, e à frente de todos o Padre Ezequiel Augusto Marcos, o Padre Francisco Vaz e o Santo e Sábio Padre Carolino Carvalho, de quem era acólito na Igreja dos Grilos. À pergunta de meu pai: – Como vão os estudos, quando chegava a Religião-Moral, acabava sempre por dizer: – Vai, mais ou menos. Temia dizer-lhe que não gostava do padre, e ser presenteado com alguma “galheta”.
No segundo tempo era História. Depois de alguma espera e com a turma em grande algazarra, eis que surge um homem em passo apressado, deixando a turma em silêncio. Depois de tirar a gabardine bastante sovada, sentou-se à secretária e de olhar vazio passava o livro de ponto, alternando com olhares pela janela. Enquanto ele estava em silêncio sepulcral, a sala de aula era invadida por um som babilónico. O professor indiferente, não se importava.
Eu, incomodado, olhava de revés o professor, e logo concluí, que aquele homem era o José Afonso. Era o cantor que ouvia na rádio com os meus irmãos mais velhos. Algumas das suas canções passavam no programa Órbitra do RCP muito em voga. Sabia que tinha sido expulso do Liceu de Setúbal, onde estudava a minha irmã mais velha, por causa da política. Que faria ali aquele homem a dar aulas a uma turma de miúdos do ciclo!?
Levantando-se da secretária, começou a falar em cima do estrado: – Eu sou o vosso professor de História. Estou aqui porque preciso de ganhar a vida e como os meus filhos não pôem ovos, preciso de dar estas aulas. Mas não vou dar esta História da treta, imposta por este regime tenebroso, que espera pela tal idade para vos obrigar a marchar para África. A História que vou ensinar é contada pelos Homens do Mar, sentida nos Lugares e vivida pelos Povos que fazem a História. O silêncio era total na turma.
Esta turma era problemática, com bastantes repetentes, e onde as idades variavam entre os 12, que era o meu caso, e os 17 anos. Também havia alunos subnutridos, oriundos dos bairros de lata. Calados, e olhando uns para os outros, logo compreendemos que aquele professor era diferente.
- Mas não pensem que vocês não vão ter que estudar. Isso vocês têm que fazer, estudar, para serem Homens Livres, e pensarem pela vossa cabeça e assim combaterem esta ditadura, para termos um novo País. Outra coisa: Vou ter que fazer pontos, porque tenho que dar notas. Por isso vão ter que estudar o vosso livro. Têm que estudar, mesmo que essa matéria seja uma falsidade. Se quiserem copiar é com vocês. Não vou andar armado em toupeira, é uma decisão vossa. No entanto acho que devem ser honestos, porque se não o forem, juntam-se ao bando de vigaristas e corruptos que governam este país. Temos que ser dignos connosco, para sermos dignos com os outros. Por isso, recomendo que não devem copiar. Há que criar princípios e valores. Não concordam? Bem, por hoje é tudo, podem sair.
Ao longo dos dois períodos que foi nosso professor, entrevistámos pescadores, visitámos ruínas romanas, folheámos enciclopédias cheias de gravuras inacessíveis aos pobres, eram aulas vivas de História. Foi das turmas com menor abstenção e o aproveitamento subiu substancialmente. Depois da Páscoa já não voltou, sem sabermos porquê. A professora substituta, admirada dizia que nunca tinha visto uma turma com tanto entusiasmo pela História.
Se este não fosse um País de labregos, com colossal desonestidade, que medram em asfixiante mediocridade de cariz inquisitorial, provavelmente o País respirava a Obra Humana, Intelectual, Musical e Poética de Zeca Afonso.

Ezequiel Alves Fernandes

Da AJA  http://www.aja.pt/

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