domingo, 17 de junho de 2012

Fado das Lágrimas

FADO DAS LÁGRIMAS (vulgo Fado das Águias)

Música: atribuível a Manassés de Lacerda Ferreira Botelho (1885-1962)
Letra: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (1825-1890)
Incipit: Oh fonte que estás chorando
Origem: Coimbra (?)
Data: ca. 1903-1904

Oh! fonte que estás chorando,
Não tardarás a secar
Mas os meus olhos são fontes
Que não param de chorar.

Oh! triste da minha vida,
Oh! triste da vida minha,
Quem me dera ir contigo
Para onde tu vais, andorinha.

Oh! águia que vais tão alta
Por essas serras d’além,
Leva-me ao céu onde eu tenho
A alma de minha mãe.

Canta-se o 1.º dístico, repete-se; canta-se o 3.º verso, repete-se; canta-se o 4.º e repete-se.

Esquema do acompanhamento:

1.º dístico: Si m, Mi m || 2.ªSi, Si m (1.ª vez)
1.º dístico: Si m, 2.ªMi, Mi m || Si m, 2.ªSi, Si m (2.ª vez)
3.º verso: 2.ª Ré, Ré | 2.ª Ré, Ré
4.º verso: 2.ª Si, Si m | 2.ª Si, Si m.

Informação complementar:

Serenata em compasso 4/4 e tom de Lá Menor, do período Belle Époque, inserta na 1.ª série de «Fados e Canções Portuguezas cantadas por Manassés de Lacerda para cylindros e discos de machinas falantes», editada no Porto pela casa Arthur Barbedo, Rua do Mousinho da Silveira, 310-1º, ca. 1906, série que na altura custava 600 réis. A coleção completa compreendia três séries de 10 composições cada. Posteriormente, em 1914, estas três séries foram reeditadas pela casa Moreira de Sá, também do Porto. Nelas não há qualquer indicação quanto a autores, quer das músicas, quer das letras.

As quadras transcritas supra, acrescidas de uma 4.ª (Rouxinol canta de noite) apareceram publicadas por Camilo Castelo Branco (cf. Serões de São Miguel de Seide, 1885) e foram primeiramente musicadas por José Viana da Mota, no tema «Pastoral» no ano de 1895. «Pastoral. Opus 10, N.º 1», veio publicada no fascículo «Cinco canções Portuguezas para canto e piano», tendo atingido pelo menos a 12.ª edição na Sassetti & Ca.

Entre 1898 e 1903 as mesmas quadras foram também integradas no «Fado de Braga», de autor anónimo, cuja solfa circulou na «3.ª série de 12 cantos populares. 12 fados para piano». Porto: Casa Eduardo da Fonseca. Porém, «Fado de Braga», em compasso 4/4 e tom de Dó menor, é melodicamente distinto do Fado das Lágrimas aqui transcrito.

Em 1906, as referidas quatro quadras integraram o «Fado da Récita de Despedida dum Grupo de Quintanistas de 1905-1906», cantado por Custódio José Vieira, com música de António Dias da Costa. Neste caso, estamos em presença de uma melodia diferente da cantada por Manassés de Lacerda, que comporta coplas soladas e refrão.

Serenata gravada em 1905, em Lisboa (?), pelo próprio Manassés de Lacerda, com acompanhamento de piano (Disco Gramophone, 62385; idem, 3-62292).

Manassés vocaliza as quadras a solo com a seguinte sequência, sendo necessários oito versos para cantar a melodia:

Oh! fonte que está chorando,
Não tardarás a secar
Oh! fonte que estás chorando,
Não tardarás a secar
Mas os meus olhos são fontes
Mas os meus olhos são fontes
Que não param de chorar
Que não param de chorar.

Esta mesma composição foi gravada pelo barítono Arthur Trindade, com o título «Fado Luiz d’Oliveira», em 1.4.1910 no Disque Pour Gramophone G. C. 52458 (de 25cm), em Lisboa, com acompanhamento de piano. A etiqueta é omissa em autorias de música e de letra. Trindade canta a seguinte letra:

Na branca areia do mar
Teu nome um dia tracei
O mar levou-mo cem vezes
(Ai) Cem vezes lá o gravei.

Subi ao céu e sentei-me
Duma nuvem fiz encosto
Dei um beijo numa estrela
(Ai) Julgando ser o teu rosto.

Os teus olhos negros, negros
São gentios da Guiné
Da Guiné por serem negros
(Ai) Gentios por não terem fé.

O registo referenciado supra aparece comercializado no fonograma Zonophone X 52458 (de 25cm). As três quadras gravadas por Trindade são extraídas do cancioneiro popular. A 3.ª era cantada nos Açores e em Coimbra, tendo integrado o «Fado Serenata» de Augusto Hylario (1894). O esquema do canto, em 4/4 e Si menor, é idêntico ao do «Fado das Lágrimas»: canta-se o 1.º dístico, repete-se; canta-se o 3.º verso, repete-se; canta-se o 4.º verso, repete-se. Porém, a linha melódica constitui já uma variante face à composição original.

Temos notícia de um terceiro registo do «Fado das Lágrimas» efectuado por Luiz Ferreira, na cidade do Porto, em 1911 (78 rpm Favre 10842-0) que canta apenas a 1.ª e a 3.ª quadras e altera dois versos da 3.ª quadra (d’além ==» levada e mãe ==» amada).

Serenata gravada pelo barítono Alfredo Bicker de Andrade Mascarenhas (Portimão, 1882; New Bedford, 1943), cantor lírico com carreira internacional, no fonograma «Fado Serenada», Lisboa (?), Disco Odeon n.º 43089, antes de 1922 (ca. 1916-1917), com acompanhamento de piano, sem indicação alguma de autorias. Ao contrário de Manassés, de Luiz Ferreira e de Arthur Trindade, Alfredo Mascarenhas canta e repete o 2.º dístico de cada quadra. Canta em 4/4 e Si menor, mas a melodia é uma variante ainda mais acentuada face ao original. A letra que gravou é a seguinte:

Já o luar se levanta,
Só tu minha preguiçosa
No teu leito cor-de-rosa
Assim desprezas quem canta.

Quem espera sempre alcança:
Diz um ditado traidor.
Eu espero e desespero
Não alcanço o meu amor.

Teus olhos contas escuras
São duas avé-Marias
De um rosário de amarguras
Que eu rezo todos os dias.

Do céu à terra é um passo;
Da vida à morte é um ai;
Do meu peito ao teu peito
Tamanha distância……………

A 1.ª quadra era a 2.ª do «Fado de Montemor», integrante do reportório Manassés de Lacerda. É da autoria do poeta popular de Coimbra Adelino Veiga (Cf. A lyra do trabalho, 1886, p. 128). A 2.ª quadra é popular. A 3.ª quadra é do poeta e antigo estudante de Coimbra Augusto Gil (Cf. Livro de versos, 1898), tendo sido retomada na década de 1960 por José Miguel Baptista. A 4.ª parece ser igualmente popular, não se conseguindo perceber e transcrever na íntegra devido à degradação do fonograma e à dicção do próprio cantor.

Serenata gravada pelo cantor Augusto Lopes no Rio de Janeiro, no mês de janeiro de 1928, com o título adulterado para «Fado da Águia», no disco de 78 rpm Parlophon 12.858-A, master 2034, identificando como autor Manassés. Augusto Lopes gravou no Rio de Janeiro amostragem significativa de composições do reportório Manassés, vocalizando-as conforme as novidades interpretativas lançadas pelo próprio Manassés nos alvores do século XX. Admite-se que este cantor, ou membros da formação instrumentística que o acompanharam, fossem coevos da estadia de Manassés na cidade do Porto ou então que tenham conhecido os registos que efectuou em 1913 já radicado no Brasil (?).

Esta melodia, com algumas modificações, com a designação vulgar de «Fado das Águias», viria a a ser transmitida oralmente ao estudante José Afonso pelo também estudante de Medicina Augusto Camacho Vieira nos finais da década de 1940. Segue-se a respectiva ficha de inventariação, com notícia do título vulgar:

FADO DAS ÁGUIAS

Música: atribuível a Manassés de Lacerda Ferreira Botelho

Letra: 1.ª quadra de Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco; 2.ª quadra de Fernando de Lemos Quintela (1946)

Ó águia que vais tão alta
(Ai2) Por essas serras d’além,
Leva-me ao céu, onde eu tenho
(Ai1) A alma de minha mãe.

As lágrimas que eu chorei
(Ai2) Leva-mas porque são puras,
São as preces que eu rezei
(Ai1) Com saudades e ternuras.

Canta-se o 1.º dístico, repete-se; canta-se o 2.º dístico e neste apenas de repete o último verso.

Esquema do acompanhamento:

1.º Dístico: Si m, 2.ªMi, Mi m ||| 2.ªSi m, Si m;
2.º Dístico: 2.ªRé, Ré ||| 2.ªSi, Si m;
Último verso: 2.ªSi, Si m.

José Afonso, quando ainda estudante de Histório-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, gravou esta composição em 1952, sob o título «Fado das Águias», acompanhado à guitarra por António Brojo (1.ª g)/António Portugal (2.ª g), e em violões de cordas de aço por Aurélio Reis/Mário de Castro (disco de 78 rpm MELODIA, 15.097, de 78 rpm). O arranjo de acompanhamento é da autoria de António Pinho Brojo. No citado fonograma, e nas subsequentes reedições, consta sempre o nome de José Afonso como autor da música e da letra, o que é falso.

Sequência do canto na lição de José Afonso (1952):

Ó águia que vais tão alta
Por essas serras d’além,
Ó águia que vais tão alta
(Ai) Por essas serras d’além,
Leva-me ao céu, onde eu tenho
A alma de minha mãe
(Ai) A alma de minha mãe.

Gravações do registo José Afonso disponíveis em extended play:

-Alvorada, MEP 60050, editado em 1957 e Melodia, EP-85-5, editado em 1972.

E em long play:

-LP Alvorada, LP-04-17, Alvorada, ALD 503 e Aquila, AQU 02-52).

Em compact disc:

-CD «José Afonso – De Capa e Batina». Lisboa: Movieplay, JA 8000, 1996, faixa n.º 1;

-CD «Fados e Guitarradas de Coimbra». Lisboa: Movieplay, MOV. 30.332/A, editado em1996;

-Col. Um Século de Fado/Ediclube, CD N.º 6/Coimbra. Lisboa: EMI 7243 5 20640 2 1, editado em 1999.

A letra original da 1.ª quadra é a que acima se apresenta, uma vez que José Afonso gravou uma variante aprendida de outiva. A 2.ª quadra é da autoria do estudante Fernando Quintela, o Poeta Quintela, de seu nome completo António Fernando Rodrigues de Lemos Quintela, que conviveu com Augusto Camacho na República Palácio da Loucura e que fez a quadra a pedido do próprio Augusto Camacho, que queria cantar esta composição na 1.ª Serenata de Coimbra que seria transmitida pelo Emissor Regional de Coimbra da Emissora Nacional em dezembro de 1946.

Artur Paredes também aproveitou a música do Fado das Lágrimas para a guitarrada “Cantares Portugueses”: 45 rpm «Artur Paredes». Lisboa: Alvorada, MEP 1961, acompanhado por Carlos Paredes (2.ª g) e Arménio Silva (v). Remasterizado no CD «Artur Paredes». Lisboa: Movieplay, MOV 30.480, 2003, faixa n.º 7.

Outros registos:

-«Fado das Águias», lição de José Afonso, EP «O sol anda lá no céu». DECCA, PEP 1.231, s/d [década de 1960], canta Ângelo Fernandes acompanhado por Armando Retto, Arnaldo Abreu e Joaquim dos Anjos.

-«Fado das Águias», lição de José Afonso, EP «Fado Corrido de Coimbra». Porto: OFIR, AM 4.101, ano de 1968, canta António Bernardino acompanhado por Nuno Guimarães (1.ª g), Manuel Borralho (2.ª g), Jorge Rino/Rui Borralho (vv). Reedição no LP OFIR MAS 329. Remasterização no CD «Fados e Baladas de Coimbra. Recordando Nuno Guimarães». Porto: OFIR, DSA-CD-401, ano de 1997, faixa n.º 10, com indicação de “Popular. Arr[anjo] Rui Pato”.

-«Fado das Águias», lição de José Afonso. Canta Américo Lima, cantor ativo em Lisboa na década de 1960, LP «Coimbra Romântica», Request Records, RLP 8065.
-CD «Coimbra de Sempre – Raul Dinis». Lisboa: Discossete, 971000, 1993, faixa n.º 10, acompanhado por António Ralha (1.ª g), Jorge Gomes (2.ª g) e Manuel Borralho (v). Indicação de “DR” [Direitos Reservados], sinal de que os membros desta formação sabiam que a obra não fora composta por José Afonso mas não dispunham de dados sobre o verdadeiro autor.

- «Fado das Águias», pela lição de José Afonso, registo do fadista ativo no Porto Valdemar Vigário – CD Audio CD de 1993.

-CD «Mar Lágrima – Grupo Madeirense de Fados de Coimbra». s/l [Funchal], s/d [2000], canta Luis Filipe Costa Neves.

-Sutil Roque – CD «Os Amigos», Lisboa, EMI 7243 5 82063 2 6.

-«Fado das Águias», CD «Coimbra d’ontem, Coimbra d’ hoje». Coimbra: Aeminium AE 003, 2001, faixa n.º 7. Canta José Neves, acompanhado por António Jesus (g).
-«Fado das Águias», CD «Coimbra é uma saudade». Coimbra: Aeminium AE 002, 2002, faixa n.º 5. Canta Mário Gomes Pais acompanhado por António Jesus/Carlos Jesus (gg) e Paulo Larguesa/Bernardino Gonçalves (vv).

Presenças no youtube (junho de 2012):

-José Afonso/«Fado das Águias»/registo de 1952, http://www.youtube.com/watch?v=MsZ9_EY2bu8 .

O processo de revisão da autoria desta composição foi suscitado junto da Sociedade Portuguesa de Autores em 2004 a propósito da gravação do vulgarmente chamado «Fado das Águias» por Ribeiro da Silva: CD «Coimbra Menina e Moça». Lisboa: 2004, faixa n.º 4. Canta Luís Ribeiro da Silva acompanhado por Teotónio Xavier/Carlos Couceiro (gg) e Durval Moreirinhas/António Toscano (vv). De acordo com os documentos disponíveis à data e entregues à SPA por José Anjos de Carvalho, as evidências remetiam para o músico António Dias da Costa e para a composição «Ó águia/Fado de Despedida do 5.º ano jurídico de 1906». A SPA aceitou rever a situação, tendo ficado provado em 2004 que o chamado «Fado das Águias» era anterior ao nascimento de José Afonso (1929). Novo estudo sobre a origem e abordagens orais desta composição, consubstanciado na presente ficha de inventário, prova que o vulgarmente chamado «Fado das Águias»:

a) é um derivado do «Fado das Lágrimas», testemunhando um processo idêntico à situação configurada pelo «Fado do Mar Largo», do Dr. Paulo de Sá, e pelo seu derivado conhecido por “A água da fonte é louca”;

b) a sua radicação nas comunidades de prática masculinas de Coimbra e do Porto é muito anterior ao nascimento de José Afonso;

c) pese embora sem provas irrefutáveis, assumimos que o nome mais consistentemente posicionado quanto à autoria desta composição é Manassés de Lacerda.

Não deve confundir-se a presente composição com um tema do Fado artístico de Lisboa, «Fado das Lágrimas» (Gota d’agua que ao brilhar) gravado por Fernanda Peres em 1958.
Transcrição: Octávio Sérgio (2012)
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes
Agradecimentos: Dr. Jorge Rino, Dr. Augusto Camacho Vieira, José Moças (TradiSom)

Som da partitura em MIDI
http://soundcloud.com/oct-vio-s-rgio-azevedo/fado-das-l-grimas/s-YtYyi

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Deixo a nota de que a música deste fado recorda-me, pelo menos de memória, um antiquíssimo fado lisboeta - o Fado João Black, como gravado em 1926 ou 1927 por Alberto Costa (curiosamente interpretado - e muito bem - num estilo que hoje considerariamos semelhante ao do fado de Coimbra).

Que o João Black (1872 - 1955) foi compositor do fado desse nome, não parece haver muita dúvida, e os periódicos de fado dos anos 20 e 30 referiam-no como facto, creio que mesmo em textos relacionados a homenagens organizadas ao velho fadista. Este fado vinha também já brevemente mencionado num dos livros do Pimentel ou do Tinop (no texto, e não nos anexos com fados publicados) - quando Manassés estaria ainda a terminar o liceu (?).

Lembra-me também um discurso publicado num desses periódicos sobre o "velho estilo" (do ponto de vista de ca. 1930) de cantar o fado em Lisboa, mais dolente e arrastado, lento (e refiro este discurso porque me lembro de o Fado Black ser nele enumerado para provar que já pelo final do séc. XIX se cantavam um grande número de fados originais, que fugiam ao molde do corrido). Face a esse texto, poderia-se ainda pôr a questão de se, ironicamente, o fado de Coimbra, em certos paramêtros, não se aproximará mais ao fado primitivo do século XIX do que o fado lisboeta desde os tempos do Armandinho e das casas de fados, tendo talvez preservado melhor alguns traços originais do género - mas isso é outro tema de conversa. Questiono-me ainda também se Alberto Costa não estaria, conscientemente, a tentar aproximar-se da maneira então antiga de cantar o Fado Black na dita gravação - o que seria possível, se ele participou nalguma das festas feitas em sua honra ou tinha contacto com ele - mas isto são teorias, e seria necessário aprofundar muito bem os documentos existentes antes de se tirarem quaisquer conclusões.

Deixo portanto a sugestão desta pista, que pode valer a pena ter em atenção - será este o Fado João Black? Se a memória não me atraiçoa, e ouvi esse disco há já muito tempo (curiosamente num programa de rádio que estará algures em podcast na RTP), a questão da autoria deste fado poderá ficar resolvida - tenho uma impressão forte de serem o mesmo.

23 de agosto de 2012 às 05:22  

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