sábado, 2 de abril de 2011

Na sua edição de 30 de Março de 2011 (ver post abaixo), o Blog Guitarra de Coimbra IV editou um vídeo onde figuram o falecido Eng. Pedro Magalhães Ramalho (voz), Carlos Paredes (g) e Fernando Alvim (v).
Nos comments, o Sr. Prof. Doutor Armando Luís de Carvalho Homem perguntava se não poderíamos descodificar a letra.
Agradecemos a interpelação, acrescentando que se poderá fazer alguma coisa em prol.
Vejamos:

1. Factos confirmados, que não suscitam dúvida
-trata-se efectivamente da música do FADO DA SÉ VELHA, composição de inícios da década de 1920, cujo autor é o Dr. Francisco Paulo Menano, mais conhecido no milieu por Chico Menano;
-esta música foi gravada na década de 1920 por António Menano e por José Paradela de Oliveira, cantando cada um letras completamente distintas;
-a versão literária que se veio a impor foi a registada fonograficamente por José Paradela de Oliveira [Aquela moça de aldeia, letra do poeta Américo Durão (1893-1969) retirada do livro Poema de Humildade, de 1917, Canto II, mas mantendo o título da composição original], ulteriormente retomada com estropiamentos por José Afonso;
-António Menano e José Paradela de Oliveira mantiveram nas fichas técnicas das rodelas de 78 rpm o título original da composição, enquanto José Afonso modificou o título fazendo-o coincidir com o 1.º verso da 1.ª quadra de Américo Durão;
-o toque utilizado por Carlos Paredes no acompanhamento de Pedro Ramalho remete para o património familiar dos Paredes. Queremos com isto dizer que o acompanhamento retoma com alguma liberdade o toque criado e utilizado por Artur Paredes no disco em que Edmundo Bettencourt cantou SAUDADINHA.

 2. Transcrição da letra que Pedro Ramalho canta:

Dizem que as almas são pombas
Brancas, negras, não sei bem.
A minha, só tem das pombas
As penas que as pombas têm.

Aqueles a quem acenas
O lenço na despedida
São felizes, têm penas
Eu sofro sem pena a vida.

 3. Comentário
Quem cantava habitualmente o chamado FADO DAS POMBAS (Dizem que as almas são pombas), era o Dr. José Paradela de Oliveira, não o tendo contudo gravado.
Não sabemos quem possa ter ensinado esta letra a Pedro Ramalho. Possivelmente Paradela de Oliveira, possivelmente Artur Paredes. Em todo o caso, a letra cantada por Pedro Ramalho no vídeo está estropiada pela aprendizagem de outiva.
Vejamos as autorias.
A 1.ª quadra, é da autoria de Alfredo Pimenta (1882-1950), e tem a seguinte versão original, pontuação incluída:

Dizem que as almas são pombas,
Brancas, negras… não sei bem!
A minha só tem das pombas
As penas que as pombas têm!

Vem publicada em Alfredo Pimenta, O Livro da Minha Saudade, Portugália Editora, 1923, pág. 73.
A 2.ª quadra é de Fernando Pessoa (1888-1935):

Ditosos a quem acenas
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena…
Eu sofro sem pena a vida.

Vem editada no livro Poesias, de Fernando Pessoa, Lisboa, Edições Ática, colecção Poesia. É a 1.ª quadra da poesia Marinha e foi publicada no n.º 5 de Junho de 1927, da revista Presença.

José Anjos de Carvalho
António Manuel Nunes
(1.4.2011)

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