terça-feira, 4 de setembro de 2012


INVENTARIAÇÃO E DESCRIÇÃO DE DOCUMENTOS SONOROS
Reportório fonográfico da Canção de Coimbra em Lomelino Silva (1892-1967)
1-ZONA DE CLASSIFICAÇÃO
1.1-País onde é custodiado o acervo: Reino Unido
1.2-Código de classificação/Número de inventário: sem dados
1.3-Local onde é custodiado o acervo: Londres
1.4-Entidade detentora do acervo/colecção: reedição a partir do arquivo da EMI/Londres, séries fonográficas de 78 rpm (1926); TradiSom/Vila Verde, remasterização (2009). No arquivo da TradiSom apenas falta um dos discos gravados por Lomelino Silva
2 – ZONA DE IDENTIFICAÇÃO
2.1-Título principal declarado: Lomelino Silva
2.2-Título secundário: O Caruso Português. Integral das gravações 1926
2.3-Subtítulo: sem dados
2.4-Título vulgar/popularizado: sem dados
2.5-Título atribuído: sem dados
2.6-Projeto: Arquivos TradiSom/Cantores líricos portugueses
Área de dados registados na ficha técnica
2.7-Autor da música/compositor: Alberto Sarti, Tomás Lima, Coutinho de Oliveira, Alfredo Keil, Fernando Moutinho, António Menano, Giuseppe Verdi, Rui Coelho.
São detalhados nos campos específicos apenas os nomes dos compositores correlacionados com o reportório conimbricense.
2.8-Autor do arranjo: sem dados
2.9-Autor da letra: ver campo específico de conteúdos
2.10-Intérprete vocal: SILVA, Nuno Estêvão Lomelino (tenor)
2.11-Intérprete instrumentista: pianista inglês Percy Kahan, referido na brochura
2.12-Produtor fonográfico/editor: TradiSom Produções Culturais, a partir dos registos His Master’s Voice/Londres/1926
2.13-Local do registo: Londres (1926)
2.14 -Local de gravação: Londres (1926)
2.15-Estúdio: Estúdios Abbey Road/Londres (digitalização)
2.16-Copyright: “sob licença da EMI Music Portugal, Lda.”
2.17-Registo na S.P.A.: TRAD 058
2.18-Número de edição/depósito legal: sem dados explícitos
2.19-Patrocinadores/coeditores: obra patrocinada pela Câmara Municipal do Funchal e pela Direção-Regional dos Assuntos Culturais da Região Autónoma da Madeira
2.21-Local de edição: Vila Verde (2009)
3 – ZONA DE DESCRIÇÃO
3.1-Área de descrição física e gráfica
3.1.1-Natureza do documento: documento sonoro compost
3.1.2-Suporte: 1 compact disc
3.1.3-Velocidade: sem dados
3.1.4-Dimensão: 1 estojo em plástico e cartão, 14cmx12,5cm; 1 brochura em papel, 12cmx11,8cm
3.1.5-Duração: 46,98 minutos
3.1.6-Número de registos sonoros: 18 faixas numeradas por ordem crescente
3.1.7-Número de objectos integrados na unidade de instalação: 2
3.1.8-Programa de reprodução: não referido. Limpeza de ruído por José Navia/Audiorestauración (Galiza)
3.1.9-Brochura de acompanhamento: 1 livreto a cores, com texto e imagens, 24 p. Texto de apresentação por Carlos Guilherme (tenor). Texto de investigação assinado por Duarte Miguel Barcelos Mendonça, Funchal, 3 de abril de 2009. Síntese em inglês. Transcrição das letras cantadas.
3.1.10-Iconografia: Retrato do cantor, interior do teatro Baltasar Dias, folha de catálogo da Victor Records
3.1.11-Grafismo: Ana Cláudia Araújo
3.2-Área de descrição tipológica
3.2.1-Microclassificação: música portuguesa
3.2.3-Género: Canção de Coimbra
3.2.4-Subgénero: monodias estróficas, carta musicada, canção com refrão
3.2.5-Tipo de reportório: composições ligeiras apropriadas a serenatas de cortejamento ao ar livre e entretenimento de público ecléctico frequentador de salões, teatros, casinos, hotéis e termas
3.2.6-Estilo/Movimento artístico: Ultra-Romantismo estético, naturalismo literário, regionalismo ruralista, patriotismo
3.3-Área de identificação de títulos
Relação dos títulos e incipts conforme a ordenação presente no CD, sublinhando os títulos do reportório conimbricense:
1-Mãezinha (Minha mãe, minha mãezinha), Alberto Sarti
2-Guitarrada (Tristezas e mais tristezas), Alberto Sarti
3-As amendoeiras (Que lindas, como estão lindas), Alberto Sarti
4-Canto do Rouxinol (Rouxinol que tanto cantas), Alberto Sarti
5-Vindima (Os olhos das raparigas), Alberto Sarti
6-As Cotovias (Cotovia, cotovia), Alberto Sarti
7-Para as raparigas de Coimbra (Tristezas têm-nas os montes), Tomás de Lima
8-As Pombas (Vai-se a primeira pomba despertada), Fernando Moutinh
9-Papoulas (Rubras centelhas), Alberto Sarti
10-Carta da Aldeia (Minha querida Maria), José Coutinho de Oliveira
11-Canção Perdida (Alguém de mim se não lembra), Tomás de Lima
12-Fado das Romarias (Benditas sejam as fontes), António Paulo Menano
13-Fado da Granja (Ao ver-te presa d’enleios), António Paulo Menano
14-Porque duvidas tu deste amor louco? (Porque duvidas tu deste amor louco), Alfredo Keil
15-Lamento de Frederico (Anchi’io vorrei dormir cosi), Cilea
16-Questa o quella (Questa o quella per me pari sono), Giuseppe Verdi
17-La Donna é mobile (La donna é mobile), Guiseppe Verdi
18-Fado (Portugal, palavra doce, doce), Rui Coelho
3.4-Área de descrição de conteúdos
Titulos e incipts das faixas sonoras conforme ordem original, destinado à inserção de fichas de inventário detalhadas e de elementos de sinalização de erros.
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Mãezinha (Minha mãe, minha mãezinha)
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Música: Alberto Sarti
Letra: autor não identificado
Local: Lisboa
Função inicial: serão artístico/teatro
Idioma: língua portuguesa
Data: ca. 1917-1920
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Minha mãe, minha mãezinha
Que bonita que tu és
Pareces Nossa Senhora
Com a lua nova aos pés.
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Minha mãe, minha mãezinha
Minha mãezinha do Céu
Tenho tido mil amores
Nenhum mais firme que o teu.
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Estou vendo a minha casa
Estou lembrando meu leito
Estão as lágrimas todas
Batendo contra o meu peito.
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Composição musical estrófica. Canta-se cada estrofe seguida e bisa-se o 2.º dístico. No final, após breve coda instrumental, termina-se com o 4.º verso solto da 3.ª quadra. Gravado por Lomelino Silva em Londres no disco de 78 rpm His Master’s Voice B 4667, 7-62105, a 26.4.1926.
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Guitarrada (Tristezas e mais tristezas)
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Subtítulo: Fado Triste
Música: Alberto Sarti
Letra: Vicente Arnoso
Local: Lisboa
Função inicial: serão artístico/teatro
Idioma: língua portuguesa
Data: ca. 1917
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Tristezas e mais tristezas
Nada mais tenho p’ra dar
Eu dei-te o meu coração
(Ai) Não mo quiseste aceitar.
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Todos se queixam da vida
Mas mal se sentem morrer
Não há nenhum que não queira
(Ai) Não queira ainda viver!
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Composição musical de tipo estrófico. Canta-se cada estrofe seguida, repete-se o 4.º verso, repetem-se o 3.º e o 4.º versos, e volta a cantar-se o 4.º verso. Finaliza-se com o 4.º verso solto da 2.ª estrofe.
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Esquema do canto:
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Tristezas e mais tristezas
Nada mais tenho p’ra dar
Eu dei-te o meu coração
(Ai) Não mo quiseste aceitar.
Não mo quiseste aceitar.
Eu dei-te o meu coração
(Ai) Não mo quiseste aceitar.
Não mo quiseste aceitar.
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Não queira ainda viver!
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Registo efectuado em Londres por Lomelino Silva no disco de 78 rpm His Master’s Voice B 4667, 7-62106, em 26.4.1926. Esta composição foi editada em partitura pela casa P. Santos & Cª., Salão Mozart, sita na rua Roberto Ivens 52-54, Lisboa, que fazia distribuição em Portugal, Brasil e América do Norte.
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As Amendoeiras (Que lindas, como estão lindas)
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Música: Alberto Sarti
Letra: José Coelho da Cunha
Local: Lisboa
Função inicial: serão artístico/teatro
Idioma: língua portuguesa
Data: ca. 1917-1920
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Que lindas! Como estão lindas
Agora as amendoeiras
Inverno, porque não findas?
Deixa apagar as braseiras!
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Pois não vês que a primavera
Cheia de luz e de seiva.
Parece que já te espera
Para florir cada leiva?
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Tão brancas, as amendoeiras
Parecem véus de noivar,
Ou roupa que as lavadeiras
Põem ao sol a corar!
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Deixa, pois, as amendoeiras
Carregadinhas de flor
Sejam sempre as mensageiras
Da primavera e do amor.
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Composição musical de tipo estrófico para tenor. Cantam-se as quadras seguidas, agrupadas duas a duas, como se fossem oitavas, esquema utilizado no início do século pelo cantor Manassés de Lacerda.
Transcreveu-se a letra conforme o poema original de José Coelho da Cunha, Canções da terra, Lisboa, Tipografia do Diário de Notícias, 1913. Sarti aproveitou 4 das 7 estrofes que constituem o poema.
Registo efectuado em Londres por Lomelino Silva no disco de 78 rpm His Master’s Voice B 4668, 7-62107, em 26.4.1926.
Esta composição foi editada em Lisboa pela casa P. Santos & Cª., Salão Mozart, sendo a n.º 4 da colecção “Scenas da aldeia”, que integrava por ordem As Azenhas, Na Romaria, A prece pelos pintos, As Amendoeiras, Sinos da Aldeia e Canção da Lavadeira. Estamos em presença de temas então chamados pitorescos que na poesia e na música tentam replicar o arlivrismo que vinha a ser praticado na fotografia, nos postais ilustrados, nos painéis de azulejos decorativos e no movimento arquitectónico da chamada casa à portuguesa.
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Canto do Rouxinol (Rouxinol que tanto cantas)
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Subtítulo: Fado
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Música: Alberto Sarti
Letra: José Coelho da Cunha
Local: Lisboa
Função inicial: serão artístico/teatro
Idioma: língua portuguesa
Data: ca. 1917-1920
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Rouxinol que tanto cantas,
Conta-me cá rouxinol
Se o canto com que me encanta
É feito da luz do sol.
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Ouse uma voz como a tua,
Uma voz assim tão bela,
É feita da luz da lua,
Ou da luz de alguma estrela.
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Refrão
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Ai! Rouxinol, quem me dera!
Entender o que tu cantas!
Se são cantigas às plantas,
Ou hinos à primavera!
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Mas não, rouxinol, não digas!
Não vale a pena não contes!
Porque estas lindas cantigas,
Gémeas do canto das fontes.
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Ninguém as pode entender
Nem saber o que elas são,
Se risos de uma mulher,
Se as queixas de um coração.
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Refrão
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Se são feitas da luz do sol
Essas canções de alegria
Que tu cantas, rouxinol,
Toda a noite e todo o dia.
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Se são feitas da luz da lua
E um triste rosário de ais…
Por isso, vai, continua,
A cantar nos canaviais!
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Refrão
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Cantiga com refrão. Lomelino Silva canta a 1.ª estrofe, fazendo bis em cada um dos dísticos; seguidamente interpreta o refrão a solo, cujos versos são cantados seguidos e repetidos. Esta composição foi editada em partitura, dela se transcrevendo a letra completa.
«Fado do Rouxinol»(sic) foi gravado por Alfredo Mascarenhas no disco de 78 rpm Victor 73683, B 26221-2, em 27.2.1922, conforme consta do inventário Ethnic Music on records. Spanish, portuguese, philippine, basque. Volume 4. University of Illinois, 1990.
Registo efectuado em Londres por Lomelino Silva no disco de 78 rpm His Master’s Voice B 4668, 7-62108, em 26.4.1926.
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As Cotovias (Cotovia, cotovia)
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Música: Alberto Sarti
Letra: José Coelho da Cunha
Local: Lisboa
Função inicial: serão artístico/teatro
Idioma: língua portuguesa
Data: ca. 1917-1920
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Cotovias, cotovias!
Com que alegria louçã
Nos regorgeais os bons dias
Ao despontar a manhã!
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Na estação dos amores
Ai que lindas melodias,
Quando o campo é todo flores
Entoam as cotovias.
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De quando em vez, d’onde em d’onde
Ouve-se o noivo cantando,
E a fêmea vem e responde
E ficam-se os dois amando.
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Daqui levam uma palha
Daqui tiram uma flor,
E o pai cantando trabalha
Para os filhos desse amor.
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José Coelho da Cunha publicou o poema no livro Canções da terra, Lisboa, Tipografia do Diário de Notícias, 1913.
Lomelino Silva modifica a 1.ª quadra, nomeadamente “regorgeais” para “regorgias”, e o 2.º verso para “Que alegria nos dás”. A onomatopeia “há-há-há” não consta do poema original.
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Sequência do canto:
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Cotovias, cotovias
Que alegria nos dás (sic)
Regorgias, regorgias, regorgias, regorgias
Há-há-há
Ao despontar da manhã
Regorgias, regorgias, regorgias, regorgias
Há-há-há
Ao despontar da manhã!
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Registo efectuado em Londres por Lomelino Silva no disco de 78 rpm His Master’s Voice B 4669, 7-62110, em 26.4.1926.
A canção As Cotovias foi gravada no Brasil por Ruth Caldeira de Moura no disco de 78 rpm [editora?] 630375, em 1929.
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Carta da Aldeia (Minha querida Maria)
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Música: José Augusto Coutinho de Oliveira (1894-1931)
Letra: José Marques da Cruz (1885-1958)
Local: Coimbra
Função inicial: serão artístico/teatro
Idioma: língua portuguesa
Data: 1919
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Minha querida Maria:
Desejo saber
Se passas por i bem mai-los teus,
Que a minha, ao fazer desta fantesia
Vai indo menos mal, graças a Deus.
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Tenho tantas soidades
Que nem sei
O modo e o jeito
De contar tanta idade,
Esta paixão que eu trago no meu peito
Desde que falei contigo,
Da raiz daqui do coração.
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Lembras-te? Foi naquela romaria
À Senhora da Agonia
Cheia de cordões d’oiro, e rosas e alecrim,
Que palavras tão doces que tu tinhas!
Ai adeus, ai adeus
Aí vão mil soidades,
Que as minhas p’ra contigo
Só à vista terão fim.
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Composição gravada por Lomelino Silva em Londres, a 3 de junho de 1926, no disco de 78 rpm HMV 7-62114, B 4671, de que se editaram clones na Gramófono (AE 1655) e na Victor Talking Machine (79491-A).
A letra transcrita supra está conforme a brochura editada pela TradiSom. Seguidamente insere-se a ficha de inventário detalhada da Carta da Aldeia (título original):
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Minha querida Maria:
Desejo saber
se passas por aí bem mailos teus.
que a minha, ao fazer desta fantesia,
Vai indo menos mal, graças a Deus.
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Tenho tanta soidade que não sei
o modo, e o jeito
de contar-te esta amosidade,
esta paixão
que eu trago no meu peito.
desde que falei
contigo da raiz aqui do coração.
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Lembras-te?! Foi naquela romaria
à senhora da Agonia
cheia de cordões d’oiro e rosas e alecrim…
Que palavras tão doces que tu tinhas!
Ai adeus! Ahi vão mil soidades que as minhas
para contigo só à vista terão fim…
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Carta musicada em compasso 2/4 e ritmo festivo, editada em partitura impressa com o título e a letra transcritos supra pela casa de Armando Sousa, 124, Rua Ferreira Borges, Coimbra, setembro de 1919, com dedicatória do autor “Ao António Menano”.
Registo fonográfico efectuado por António Paulo Menano em Paris, na Primavera de 1927, no disco de 78 rpm Odeon 136.806, master Og 595, acompanhado à guitarra por Flávio Rodrigues da Silva e em violão de cordas de aço por Augusto Louro. A gravação é de péssima qualidade, possivelmente devido ao fato de a Odeon ainda não ter adotado o sistema eléctrico de registo. António Menano adultera o título para Carta d’Aldeia. Remasterização no CD António Menano. Canções. Lisboa: Odeon/EMI-Valentim de Carvalho, 1996, 7243 8 37495 22, faixa n.º 15. Brochura com textos de José Anjos de Carvalho.
Composição gravada por Manuel [Duarte] Branquinho no LP Fados de Coimbra por Manuel Branquinho. Lisboa: IMAVOX IM-30 031, 1977, Face A, faixa n.º 1, sem indicação de autorias. Canta o próprio Manuel Branquinho, que também assegura a parte instrumentística (1.ª e 2.ª guitarras, 1.ª e 2.ª violas).
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Fado das Romarias (Benditas sejam as fontes)
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Música: António Paulo Menano (1895-1969)
Letra: 1.ª e 2.ª quadras de autor(es) desconhecido(s)
Local: Coimbra [?]
Função inicial: serenata de cortejamento/complemento de digressões do Orfeon Académico
Idioma: língua portuguesa
Data: ca. 1917
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Benditas sejam as fontes
Solitárias nos caminhos,
Onde vão matar a sede
As bocas dos pobrezinhos.
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Bendita seja a candeia
D’azeite que m’alumia,
Benditos sejam os olhos
Que me dão a luz do dia.
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Composição gravada por Lomelino Silva em Londres, a 18 de maio de 1926, no disco de 78 rpm HMV 7-62116, B 4672, de que se editaram clones na Gramófono (AE 1656) e na Victor Talking Machine (79492-A).
Texto e pontuação transcritos supra conforme constam da brochura editada pela TradiSom. O Fado das Romarias, dedicado “Ao muito amigo Espadinha”, foi editado em partitura com as seguintes quadras:
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Benditas sejam as fontes
Solitárias nos caminhos
Onde vão matar a sede
As bocas dos pobrezinhos.
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Bendita seja a candeia
D’azeite que me alumia
Benditos sejam os olhos
Que me dão a luz do dia.
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Bendita sejam as teias
Que dão o linho sagrado
Onde em Sexta-Feira Santa
Vai Jesus amortalhado.
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Bendita seja a pobreza
Que não desonra ninguém
A mãe de Jesus era pobre
E Jesus pobre também.
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Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
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Informação complementar:
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Canção musical estrófica em compasso quaternário dedicada pelo autor “ao muito amigo Espadinha”. A primeira edição impressa veio a lume por volta de 1917-1918 na Litografia do Salão Mozart, Lisboa. Foi reeditada em 1923 pelo Salão Mozart, de Lisboa, sob o título “Canções de Portugal. Fado das Romarias”, com omissão de letra e de data. Por uma reedição de 1929 conseguimos apurar que a partitura atingiu pelo menos a 8.ª reimpressão.
António Menano gravou esta canção de temática ruralista em 1927, em Paris (Discos Odeon, 187.502 e A 187.502 – master Og 605). Dado tratar-se de disco de 25 cm e 78 rpm, gravou apenas as duas primeiras quadras, cantando-as por ordem inversa. Disponível em compact disc:
-CD António Menano – Fados. Vol. II. Lisboa: EMI 7243 8 36445 2 0, editado em dezembro de 1995. Textos de apresentação de José Anjos de Carvalho.
O fadista profissional Alberto Costa gravou esta canção um ano antes de António Menano, em agosto de 1926, precisamente com as mesmas quadras e pela mesma ordem que gravaria António Menano (Disco de 78 rpm Columbia, J 628 – master P 32). Tema igualmente registado pelo soprano Adelina Fernandes, por julho/agosto de 1926 no fonograma Columbia J628, P32, cantora que chegou a colaborar em recitais do Orfeon Académico no Coliseu de Lisboa e conviveu com António Menano.
O título reflecte as propostas do movimento urbano de folclorização que desde o século XIX vinha a abarcar campos como a pintura, a arquitectura e a música. Estavam na moda a cópia de elementos rurais (o pitoresco) e a integração de elementos à portuguesa em determinadas obras, o que lhes conferia um ar ecléctico e/ou revivalista. Estas produções tinham os seus públicos. No caso concreto da Canção de Coimbra a produção de composições à portuguesa chegaria ao presente sob a forma de rapsódias, da adaptação de temas provinciais e da atribuição de títulos que podem ser o que o autor/arranjista quiser (ex: no caso do tema Serra d’Arga, da década de 1950, o que é que na obra é expressamente colhido na Serra d’Arga?).
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Fado da Granja (Ao ver-te presa d’enleio)
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Música: António Paulo Menano (1895-1969)
Letra: autor desconhecido
Local: Coimbra [?]
Função inicial: serenata de cortejamento/serão convivial em espaços balneares
Idioma: língua portuguesa
Data: 1918
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Ao ver-te presa d’enleios
Deitando os olhos no chão,
Arrasto os olhos nas pedras
Ergo ao céu meu coração.
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Anda o luar pelas portas
Anda o luar pela serra,
O luar das horas mortas
É o pintor da minha terra.
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Composição gravada por Lomelino Silva em Londres, a 18 de maio de 1926, no disco de 78 rpm HMV 7-62117, B 4672, de que se editaram clones na Gramófono (AE 1656) e na Victor Talking Machine (79492-B). Transcrição da letra e pontuação supra conforme consta da brochura TradiSom. Nesta transcrição vem omitido o trauteio/refrão entre coplas, que consta da solfa impressa.
O Fado da Granja, dedicado “Ao muito amigo Emílio Faro”, foi editado em partitura com a seguinte letra:
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Ao ver-te presa de enleio,
Deitando os olhos no chão,
Arrasto os olhos nas pedras,
Ergo ao céu meu coração.
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Trauteio
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
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Anda o luar pelas portas,
Anda o luar pela serra,
O luar das horas mortas
É o pintor da minha terra.
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Lá, lá, lá, etc., etc.
Sou pobre, valha-me Deus,
Mais pobre que Pedro Cem
Cem perdeu terras e céus
E eu perdi a minha mãe.
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Lá, lá, lá, etc., etc.
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Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se. Segue-se o trauteio a solo.
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Informação complementar:
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Canção musical estrófica em compasso quaternário e tom de Ré menor. Este tema não figura nos registos fonográficos realizados por António Menano. O título reporta-se à Assembleia da Praia da Granja, local de veraneio onde António Menano se encontrou regularmente com o guitarrista Paulo de Sá e com o Prof. José Carlos Moreira até à sua partida para Moçambique em 1933.
A edição musical, impressa na Litografia do Salão Mozart, de P. Santos & Cª., Rua Ivens, 52-54, Lisboa, faz parte da colecção «Canções de Portugal – Coimbra», nela constando a dedicatória supra e de a música ser de António Menano, sendo no entanto omissa quanto à letra. Sabe-se que alcançou cinco edições, pelo menos, e que também foi feita a sua gravação em rolos para auto-piano.
Alberto Costa, profissional ativo em Lisboa, efectuou um registo de Fado da Granja no mês de Agosto de 1926: disco de 78 rpm Columbia J 636, master P26, possivelmente acompanhado por Armandinho/Georgino de Sousa.
Não há conhecimento desta composição ter sido gravada por membros de formações conimbricenses durante o século XX.
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4-ZONA DE CONTROLO E GESTÃO
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4.1-Referenciais consultados
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ALVAREZ, José Carlos; PATRÃO, Sofia – Normas de inventário. Espólio documental. Lisboa: Ministério da Educação/Instituto dos Museus e da Conservação, 2009. Disponível em http://www.ipmuseus.pt/pt-PT/recursos/publicacoes-online/pub_online_normas/ContentDetail.aspx.
BONNEMASON, Bénédicte; GUINOUVÉS, Véronique; PÉRENNOU, Véronique – Guía de análisis documental del sonido inédito. Para la implementación de bases de datos. Bogotá: Archivo General de la Nación de Colombia, noviembre de 2007. Disponível em http://casea.org/wiki/images/b/b7/Guia_de_analisis_documental_08_02_08.pdf.
COSTA, Paulo Ferreira da – Kit de recolha de património imaterial. Lisboa: Ministério da Cultura/IMC, 2011. Disponível em http://www.dgidic.min-edu.pt/.../Patrimonio/Kit-recolha_patrimonio_imaterial.pdf.
ISDIAH. Norma internacional para a descrição de documentação de instituições com acervo arquivístico. Londres: Conselho Nacional de Arquivos, 2008; Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009. Disponível em http://www.academia.org.br/.
ISAAR (CPF). Norma internacional de registo de autoridades para pessoas colectivas, pessoas singulares e famílias. Segunda edição. Lisboa: Conselho Nacional de Arquivos/Torre do Tombo, 2004. Disponível em http://dgarq.gov.files/2008/10/isaar.pdf.
ISAD (G). Norma geral internacional de descrição arquivística. Segunda edição. Adoptada pelo Comité de Normas de Descrição. Estocolmo, 19-22 de Setembro de 1999. Lisboa: Ministério da Cultura/Torre do Tombo, 2002. Disponível em http://dgarq.gov.pt/files/2008/10/isadg.pdf.
JAEGGER, Maria de Fátima Pereira; DE LYRA, Maria Helena Costa – Manual de procedimentos para descrição de arquivos sonoros. Rio de Janeiro: Ministério da Justiça/Arquivo Nacional, 1985. Disponível em http://bibliotextos.files.wordpress.com/2011/09/manual-de-arquivos-sonoros.pdf.
MAGALHÃES, Andreia - «Proposta para um modelo de catalogação como estratégia de gestão e conservação de obras de arte de imagem em movimento». In @pha. Boletim n.º 5-Preservação de Arte Contemporânea, [s/d], pp. 1-42. Disponível em http://www.apha.pt/boletim/boletim5pdf/3-AndreiaMagalhaes.pdf.
MCMULLEN, Mary - «Final report in the minimum level of description of a sound recording for an entry in a catalogue or a discography August 18, 1988. IASA cataloguing rules for audio-visual media cataloguing and documentation committee publication project». In Audiovisual archives. A pratical reader. UNESCO, 1997. Disponível em http://www.unesco.org/webworld/ramp/html/r9704e/r9704e0t.htm.
MESSINA-RAMOS, Maria Angélica Ferraz (e outras) – Manual para a entrada de dados bibliográficos em formato MARC 21. Enfase em obras raras especiais. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas Gerais, 2001. Disponível em http://www.bu.br/boletin/Manual_Obras%20raras_Completo_Versao%20Publicada.pdf.
MILANO, Mary (e outros) – The IASA cataloguing rules. 1999.
Proyeto de norma mexicana PROY-NMX-R-002-SCFI-2009. Catalogación de documentos fonográficos. México, 2009. Disponível em http://www.economia.glob.mx/work/normas/nmx/2009/poy-nmx-r-002.scfi-2009.pdf.
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4.2-Bibliografia específica
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CARVALHO, José Anjos de; NUNES, António M. – «António Menano. Cintilações e gorjeios de um “rouxinol”», série de artigos editados no Blogue Guitarra de Coimbra I, postagens de 15.9.2006, 11.10.2006, 4.12.2006 e 5.4.2007, http://guitarradecoimbra.blogspot.pt/2006/09/antonio-menano-fornos-de-algodres-05-05.html.
MENDES, Ferreira - «Música. Concerto Sarti no Theatro Nacional», In Brasil-Portugal n.º 346, de 16.6.1913.
MENDONÇA, Duarte Miguel Barcelos - «O tenor madeirense Lomelino Silva (1892-1967). Os anos dourados de uma carreira ímpar no mundo do canto lírico». In A Madeira e a Música. Estudos (c. 1508-c. 1974). Funchal: Empresa Municipal Funchal, 2008.
MENDONÇA, Duarte Miguel Barcelos - «Lomelino Silva. O Caruso português. Integral das gravações 1926», texto inserto na brochura anexa ao CD Lomelino Silva. Vila Verde: TradiSom, TRAD 058, 2009.
MOREAU, Mário – Cantores de ópera portuguesa. Lisboa, 1984.
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4.3-Reedições/remasterizações
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O projecto de remasterização e edição com a chancela da TradiSom é a primeira reedição conhecida da obra fonográfica legada por Lomelino Silva.
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4.4-Regime de acesso
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Relativamente à autoria das composições musicais e letras associadas, todas as obras registadas fonograficamente em 1926 pertencem ao domínio público, conforme disposto no Código do Direito de autor e dos direitos conexos (Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de março, com as actualizações constantes da Lei n.º 16/2008, de 1 de abril).
Relativamente aos direitos da marca fonográfica, estes são detidos pela EMI.
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4.5-Elementos correlacionados
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Sem dados
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4.6-Exposições
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Identificação das exposições, local, data, catálogo: sem dados
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4.7-Reprodução fonográfica
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Técnica de digitalização, equipamentos, estúdio, local, data: sem dados
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4.8-Estado de conservação
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As matrizes fonográficas de 78 rpm pertencentes ao arquivo da EMI encontram-se em bom estado de conservação. O CD com as remasterizações editado em 2009 está isento de defeitos técnicos.
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4.9-Notas da equipa de projecto
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Nuno Estêvão Lomelino Silva nasceu no Funchal em 1892 e faleceu em Lisboa no ano de 1967. Tenor com carreira lírica internacional.
José Marques da Cruz, nasceu em Cortes, Leiria, em 1885 e faleceu no Brasil em 1858. Estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (1908-1912), radicou-se no Brasil. Poeta nacionalista, escritor, conferencista, autor de obras técnicas, professor da Universidade de São Paulo.
O reportório conimbricense gravado por Lomelino Silva data de finais da Grande Guerra de 1914-1918. Encontrava-se fortemente popularizado nos meios aristocráticos e burgueses devido à fama conquistada pelo Dr. António Menano, às digressões artísticas e espetáculos que abrilhantou e à comercialização do seu reportório através da edição de partituras.
O Dr. António Paulo Menano nasceu em Fornos de Algodres no ano de 1885 e faleceu em Lisboa em 1969. Médico formado pela Universidade de Coimbra (1923) exerceu longamente em Moçambique. Intérprete vocal e compositor amador. É considerada uma das vozes mais emblemáticas da Canção de Coimbra da primeira metade do século XX, conjuntamente com Manassés de Lacerda e Edmundo Bettencourt.
A carta musicada para solista masculino e piano, ou piano/guitarra, é um subgénero da Canção de Coimbra próprio para salão, cultivado pelos compositores entre ca. 1918-1945. Não tem forma fixa, apresentando estrofes de 5, 6 e 7 versos (Coutinho de Oliveira), quadras simples (António Menano, “Carta de longe”) ou forma de soneto (Ângelo Araújo).
Alberto Sarti (1858-?), compositor, pianista e professor de canto italiano com intensa atividade em Lisboa entre finais do século XIX o o primeiro quarto do século XX. Natural de Livorno, estudou no Conservatório de Florença. Começou a trabalhar como director de orquestra no teatro de São João em 1886, estabelecendo-se pouco depois em Lisboa. Editou diversas composições ao estilo da Canção de Coimbra com letras de José Coelho da Cunha e Vicente Arnoso. Algumas destas canções, de cunho naturalista (títulos e textos), da série «Scenas da aldeia», foram editadas pelo Salão Mozart, de Lisboa (ex: As Azenhas, Sinos da Aldeia, Canção da Lavadeira).
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4.10-Responsabilidade intelectual
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Autor(es) e data(s) de elaboração e revisão
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António Manuel Nunes, José Anjos de Carvalho, julho/agosto de 2012
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Nota:
Trata-se de um estudo experimental que tem como objetivo promover e testar instrumentos de inventariação aptos a responder com o máximo de rigor às necessidades dos estudiosos e utilizadores praticantes da arte. Por se tratar de um campo da arquivística praticamente inexplorado, propositadamente não se naturalizam as práticas mais utilizadas que consistem em replicar acriticamente o modus faciendi da biblioteconomia (AMN).

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Acrescento que creio, ou muito me engano, que Alberto Costa foi acompanhado por Salvador Freire e Georgino de Sousa; por qualquer motivo (presumo que o apelido) esse guitarrista é por vezes confundido com o Armandinho. Alegadamente eram primos.

9 de setembro de 2012 às 17:40  

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